Indústrias que operam caldeira ou forno a biomassa têm duas opções principais de combustível derivado de madeira: lenha em pé (toras inteiras ou em pedaços manuais) ou cavaco padronizado (lascas de granulometria controlada).
A escolha não é só de preço por tonelada — envolve poder calorífico real entregue, automação de alimentação, mão de obra de operação e perdas no processo. Esse comparativo mostra em qual contexto cada combustível faz sentido.
Cavaco vs lenha — comparativo direto
| Critério | Cavaco de eucalipto (granulometria controlada) | Lenha em pé (toras) |
|---|---|---|
| Granulometria | Controlada (10-40 mm) | Variável (toras de diâmetros diversos) |
| Umidade | Padronizada por lote | Variável conforme estoque |
| Alimentação da caldeira | Automática (rosca / esteira) | Manual ou semiautomática |
| Mão de obra de operação | Mínima | Alta (operador alimentando 24/7) |
| Poder calorífico (PCI base seca) | ~4.300 kcal/kg | ~3.500 a 4.000 kcal/kg |
| Densidade aparente | Maior (preenchimento uniforme) | Menor (vãos entre toras) |
| Estabilidade da combustão | Alta (combustão homogênea) | Média (depende da peça) |
| Investimento em silo/alimentador | Necessário | Não necessário |
| Preço por tonelada | Maior | Menor |
| Custo total por Mcal entregue | Geralmente menor | Geralmente maior |
O que muda no chão de fábrica
Caldeira a lenha tradicional exige operador alimentando a fornalha manualmente. Em operação 24/7 isso é três turnos de homem, o que custa mais que a diferença de preço entre lenha e cavaco em quase todos os cálculos.
Cavaco viabiliza alimentação automática por rosca sem-fim ou esteira. Um operador acompanha o painel da caldeira sem precisar lançar madeira na fornalha. A reposição do silo é feita por carregadeira a cada algumas horas.
A combustão de cavaco também é mais estável: granulometria uniforme entrega energia constante para a câmara, evitando picos de temperatura e queda de pressão que estressam o equipamento.
Cálculo de kcal entregue por R$
O que importa não é o preço por tonelada — é quanto custa cada Mcal entregue ao processo. Cavaco com 25% de umidade e PCI base úmida de 3.200 kcal/kg, comprado a R$ 250/tonelada, entrega Mcal a R$ 78 cada.
Lenha com 35% de umidade e PCI base úmida de 2.500 kcal/kg, comprada a R$ 180/tonelada, entrega Mcal a R$ 72. Parece favorecer a lenha — mas adicione o custo do operador na fornalha, a perda por combustão incompleta e o tempo de manutenção e o cavaco vira mais barato.
Cada operação tem um break-even diferente. Caldeiras pequenas com baixo consumo e operação descontínua podem fazer mais sentido com lenha. Operações que rodam 8-24 horas por dia, todo dia, geralmente fazem mais sentido com cavaco.
Granulometria e umidade: o que pedir no fornecedor
Cavaco com partículas muito grandes não passa na rosca alimentadora e gera ponte no silo. Muito fino vira pó e queima rápido demais, instabilizando a chama. A granulometria ideal para a maioria das caldeiras industriais brasileiras fica entre 10 e 40 mm.
Umidade abaixo de 30% é o que a maioria das caldeiras digere bem. Acima disso a água absorve energia da combustão para evaporar antes de a madeira queimar, derrubando a temperatura da câmara.
Eucalipto de reflorestamento tem características previsíveis: baixo teor de enxofre (< 0,1%), pouca cinza, alto rendimento de carbono fixo. Cavaco de origem mista — galhos urbanos, podas, paletes — varia muito e dá trabalho de calibrar.
Quando lenha em pé ainda compensa
Operações pontuais — secador agrícola que roda 60 dias por safra, padaria, pequena indústria — nas quais o investimento em silo + alimentador não se paga em vida útil curta, costumam fechar a conta com lenha tradicional.
Acesso difícil — fábrica em local sem espaço de armazém — também favorece lenha. Pilha de tora ocupa menos volume que silo de cavaco para o mesmo número de horas de operação contínua.
Para o resto — caldeira industrial 24/7, secador rotativo, processo contínuo de alta demanda térmica — cavaco padronizado costuma vencer.



